domingo, março 16, 2008

O Funeral

Nesta casa já existiu vida, a luz do sol já percorreu suas paredes e ecoavam risos de convivência e alegria em dividir o mesmo teto em comunhão.

Onde hoje as infiltrações e os fungos tomam conta, já viveram meus quadros, desenhos e espasmos de tinta ocasionais. Os vermes que preenchem o chão antes eram impensáveis, pois nem as formigas conseguiam habitar uma casa tão limpa e organizada. Flores de cemitério na porta decretam o que todos tentavam negar calando-se: a morte de uma família.

Zumbis circulam por seus espaços pisando nas merdas pelo chão, brigas entre cachorros sarnentos são comuns e geralmente um deles fica apodrecendo em pleno corredor atingindo as narinas com o odor ácido de sua decomposição. O único ser que parece morar lá com desenvoltura é uma gata branca como que guardiã do túmulo onde jaz a antiga feliz família. Ela atravessa os quartos, hoje com suas paredes quebradas e com plantas mal-cheirosas pelos cantos, com classe e um ar de filme de terror.

Agora toca a marcha fúnebre e toda a procissão segue o caixão tocando sua música para celebrar o renascimento:

terça-feira, janeiro 01, 2008

Um caminho limpo

Após os abraços de conveniência à meia-noite e o abençoado beijo que realmente interessa, o chão é varrido e está pronto para novas pegadas.
Dizem que resoluções de ano-novo não funcionam, porém é sempre um dia a mais para se pensar que talvez temos outras chances na vida, além da primeira e da segunda. Escuto pássaros e corro até a janela para ver o primeiro nascer do sol em 2008 e respiro aliviado por sentir o ar gelado e observar todos os caminhos limpos para que continue minha caminhada nesta grande viagem de ácido que chamamos de vida.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Um texto cifrado

Soulution começou e nosso tempo parou. Em alguns encontros e mensagens passadas de boca em boca meus ouvidos queimaram mas logo descobriram sua voz doce e certa do que faz. Os olhos grandes, quase como em um desenho antigo me observam com a profundidade que só os puros conseguem alcançar e o corpo que Ingres já pintou. Em uma noite com os pêlos se encostando e vozes no ar a certeza, a alegria e o choro de emocionado. A cúmplice marchand, amante, amiga, voz, carinho, beijo, corpo, calor, frio que precisa de duas cobertas e as orelhas tão perfeitas que os fones não param. Ah, a beleza que tenho sobre minhas mãos que tocam sua doce pele e sentem o arrepio por entre os dedos, um sorriso nervoso e um suspiro lânguido antes de arquear as costas. As pernas brancas como pérola e o olhar pedindo mais um carinho que não consigo negar. Os cabelos vermelhos, revoltos, hoje curtos percorrem as padarias de Curitiba, a praça, as feiras, os passeios e os filmes. Meu peito ainda está com seu cheiro, minhas mãos ainda suadas de segurar sua pele com força, a respiração ofegante após me tornar um só com você, a saliva trocada, quente, queimando e a cama desarrumada não me traz mais lembranças de caminhadas por lojas de colchões. Este é um texto cifrado e cheio de referências pessoais, provavelmente uma senha entre nós dois e somente nós dois... minha linda.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Dance Sucka!



Move sucka! (é viciante, eu sei)

sexta-feira, agosto 10, 2007

Já dizia Gandhi


Pombas não prestam
Mahatma Gandhi

A heroína da semana

Amanda saiu para dirigir de madrugada quando pensa melhor, ou seja, bêbada. Não comece a julgá-la somente por essa infração, ela é uma mulher que se você se encontrar alcoolizado, sem dinheiro, em um bar escuro e cheio de fumaça até pode pensar em ir pra cima pedir outro drink.
Após criar a coragem e esquecer estas idéias vendidas pela mídia de beleza, começam a conversar a mais perfeita das conversas... aquela que se faz com os dois participantes bêbados:
- John: Aí eu falei pra minha muié... ou você pensa em mim quando a gente ta trepando ou eu vou embora!
- Amanda: E eu falava para o Bob, fica, ficaaaa... (começa a chorar no ombro de John)
John, rapaz esperto, desenvolto com as mulheres bêbadas e feias do mundo entende um sinal quando o recebe e solta aquela que nunca falha:
- Então, vamos pra tua casa?
Amanda aceita, já que não vê um pau há mais ou menos uns 5 anos e precisa ver se ta tudo funcionando lá embaixo. Agarra John pela garganta e lhe tasca um beijo que pode ser considerado um exame das amídalas retiradas na infância de nosso querido herói.
Aos trancos e barrancos entre caídas na rua, tropeçar no meio-fio e uma pequena pausa para um rápido vômito de John eles chegam no carro de Amanda, que como uma boa motorista fala para seu futuro parceiro:
- Não vou usar o cinto para te passar confiança!
No caminho para seu trailer passa a 80 km/h por um carro dos malditos policiais. Ela é parada, o maldito policial ao ver a cara e sentir o cheiro do palavreado da moça a pede para sair e soprar em um bafômetro que provavelmente estava de sacanagem com ela pois vivia apitando!
Ao ser algemada e presa pede para John ligar para o vizinho e mandar aquele vagabundo tirá-la da cadeia. Ele faz que entendeu tudo, mesmo não entendendo nada e segue tropeçando no meio-fio até sua casa. Já Amanda ao chegar na delegacia dos malditos policiais ao ser perguntada se tinha algo para dizer somente solta uma frase:
- Leia a minha camiseta!

*Eu não sou uma alcoólatra
Eu sou uma bêbada
Alcoólatras freqüentam reuniões

Fonte: te dou um dado?

sexta-feira, julho 20, 2007

Pripyat

Com o estômago queimando e a dor se alastrando sobre o último fio de esperança, sempre sonhando, sempre tentando o inalcançável. O voador plaina sobre a terra vê tudo e todos como pequenos ornamentos na tela disforme que é nossa terra.
Sempre observando e tentando encontrar os motivos de sua mais nova obsessão, roupas rasgadas em pessoas com nenhum cabelo, descendentes de moradores Pripyat totalmente nús de pêlos e com uma saúde altamente deteriorada. Chernobyl era um local que os engenheiros avisaram que iria dar merda e a merda aconteceu de forma gigantesca. Em um momento somos levados da Polônia para São Paulo para outra merda anunciada que se tornou merda concreta e flamejante. Todos silenciem pois o querido presidente irá babar...er...falar.

Santos protetores

Com a proteção de Ginsberg, Kerouac e Dylan, escrevo com uma febre que só a pressão alta das veias entupidas pode explicar. Correndo morro acima esqueço os pesos que me mantém ancorado no chão da mediocridade, quebrando as correntes do medo da vida cultivado pelas redes de televisão em noticiários sensacionalistas. A ferrugem desaba de minhas juntas e cai sobre a grama verde do vale que ainda não foi queimado para plantar cana. O rosto cinza é lavado na lagoa transparente formada pelo gelo que derrete vagarosamente de seu cume, no reflexo da água vejo o abatimento dar lugar à esperança e os olhos fundos voltarem a brilhar. Já ouvi tantas palavras vazias que a preservação fala alto junto com um orgulho que me faz calar perante o vento quente nos trigais onde rasgamos as roupas e nada mais cobre as vergonhas destes selvagens pecadores. Sejamos o pecado original e nos entreguemos à mais pura das sacanagens onde a língua explora e molha, onde os mamilos endurecem, onde as mãos penetram em um vai-e-vem desenfreado nos libertando com o mais sacro sexo possível, a foda santificada e aprovada pelos anjos.

terça-feira, julho 03, 2007

Relaxaram e não gozaram


Após doze horas no decrépito aeroporto Antonio Carlos Jobim - que deve estar se revirando no túmulo por utilizarem seu nome em algo tão feio – aguardando seu vôo decolar, os passageiros criaram um círculo de meditação para seguir o conselho da ministra do Turismo, Marta Suplicy: relaxar e gozar.
Porém após todos os mantras e cantorias que conseguiram lembrar, uma irritação permanecia no ar e principalmente a sensação de estar sendo enganado não só pelas companhias aéreas mas pelo governo como um todo. Os palhaços agora sentavam em círculo e meditavam no sujo chão do Galeão, não mais reclamavam ou exigiam explicações, haviam aceitado seu destino como vacas caminhando para o abate.
A Marta prometeu que eles gozariam, só que isto não aconteceu; Lula exigiu o fim da crise aérea oito vezes, porém a crise não obedeceu; A Aeronáutica prendeu dois representantes do controladores de tráfego aéreo e continua sem nenhum poder sobre a revolta de seus sargentos; O Waldir Pires garantiu que em dois anos a crise acaba, este prazo ainda não passou, mas nós temos o motivo para todos os problemas: a prosperidade, foi o Guido Mantega que disse.
O tempo passa, o tempo voa e os aviões não saem do chão e os despreparados funcionários das companhias aéreas olham para os passageiros com um medo da revolta da classe média. Em seu círculo de meditação eles fingem não sentirem raiva ou indignação, são educados desde pequenos a não contrariarem os pais, a Igreja ou o governo. A apatia reina sem o prazer prometido e alguns adormecem no chão já desistindo também da promessa de relaxamento. Presos como em um filme de Buñuel em uma sala invisível não se movem e fazem filas para manterem a reconfortante sensação de organização.
Nos personagens acima nós temos um retrato de diversos culpados e nenhum deles fez sequer alguma ação na direção da solução dos problemas que se apresentam. Um observador mais ácido poderia dizer que eles se merecem, mas não sejamos tão niilistas. Estes personagens de fato combinam, porém continuo com a fé de que a população possui o direito de ser tratada como um conjunto de cidadãos com direitos por pagarem seus impostos e continuarem acreditando no Brasil do futuro que não chega.
Enquanto o futuro nem os vôos chegam a Marta continua relaxando, o Lula continua falando com o vento, a Aeronáutica continua não fazendo nada e o Mantega continua em seu mundo perfeito onde a prosperidade causa problemas de deslocamento. No presente vivem os palhaços sentados em círculo em um chão sujo tentando relaxar e gozar.

domingo, julho 01, 2007

Música do Erro


Em uma noite conheço o perdão, a completa devoção de quem não tem culpa mas paga pelos pecados dos outros. Em poucas palavras, em gestos bruscos e com uma forma de silêncio bruto solto a essência da maldade.
Pensamos ser todos grandes benfeitores, os próximos Moisés, Maomés, porém o que nos sobra é a mais reles das sensações humanas: a raiva. Circulando pelas minhas veias como o próprio sangue fazendo meus olhos saltarem e minha mente procurar o alvo da destruição. Uma vez escolhido o alvo lá vai seu dono e sua raiva fazer a completa merda que decidido em vingar-se utiliza como um canivete chinês.
Pequenos cortes profundos, mensagens não entregues, tempo que nunca sobra, beijo que nunca saiu, unhas que não foram pintadas, palavras presas na garganta e mais um capítulo desta estranha e até que divertida novela.